Mário Ferreira Campos Filho é economista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com MBA em Finanças pelo IBMEC e Relações Governamentais pela FGV de Brasília. Como presidente da Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (SIAMIG) desde 2014, representa os 33 Associados da SIAMIG, produtores de açúcar e energia renovável, como o etanol e a bioeletricidade. Um dos maiores destaques da sua gestão foi o trabalho realizado para a redução do ICMS do etanol hidratado em Minas Gerais, de 19% para 14%, atualmente em 16%, possibilitando a ampliação do consumo do combustível limpo e renovável no estado.
De todo o combustível vendido em Minas Gerais em setembro – dado mais recente da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) –, o etanol representou 42%. Essa participação é a maior já registrada no Estado, que, nos últimos cinco anos, viu o consumo do álcool crescer 338%, enquanto o da gasolina caiu 38,4%. De 2014 para 2019, considerando-se o mês de setembro, o uso da gasolina recuou de 423 milhões de litros para 260 milhões de litros. Ao mesmo tempo, o de etanol no estado mineiro subiu de 62 milhões de litros para 271,9 milhões de litros.

SEGUE O ARTIGO:

Acredito que este texto a ser lido por você, leitor, será o artigo mais importante da minha trajetória como líder setorial. Depois de anos de atuação com inúmeros desafios e algumas conquistas importantes, me dou o direito de ser provocativo, o que poderá incomodar algumas pessoas.

Inicialmente, gostaria de fazer duas perguntas. A primeira refere-se ao tema ambiental, você acredita que o ser humano é causador das mudanças climáticas ou aquecimento global? Já a segunda refere-se ao açúcar: você acredita que é possível conciliar o uso de açúcar (sacarose) na dieta em busca de uma vida saudável?

É obvio que diversas outras perguntas poderiam derivar dessas duas, por exemplo, poderia perguntar sobre o carro elétrico; contudo vou ficar somente com essas duas. Mas, antes, é necessário contextualizar as grandes transformações por que o mundo e o Brasil estão passando, numa velocidade exponencial.

É de extrema urgência a todos os empresários e gestores de negócios a reflexão e a busca desse entendimento, sobretudo em função da tecnologia, que a sociedade está vivendo, que tem mudado hábitos e transformado negócios já consolidados. E, se você não tem menos de 22 anos, já adianto, é um grande desafio entender esse futuro e você pode estar tomando uma decisão completamente equivocada neste momento.

A transformação tecnológica e as inovações disruptivas têm mudado sobremaneira a forma como vemos e como agimos em sociedade. Com um aparelho na palma da sua mão, é possível fazer quase tudo relacionado à vida moderna, inclusive uma ligação. Essa transformação já está chegando de uma forma muito rápida no agronegócio, com grande evolução e um enorme campo de oportunidades, e os resultados já estão aparecendo.

Da mesma forma, o conceito de consumo consciente, seja a ideia minimalista de apenas consumir o necessário, seja a chamada consciência ambiental, tem moldado, de forma expressiva, os negócios pelo mundo. O conceito de bioeconomia, economia circular, a luta por uma causa têm crescido de forma significativa pelos quatro cantos do planeta.

As preocupações sociais com o forte crescimento dos conceitos de igualdade, inclusão/diversidade e equidade têm levado a grandes reflexões nas altas cúpulas das empresas globais e de governos e têm mudado a forma de atuação das empresas, deixando de ser apenas agentes de produção econômica para serem agentes de promoção do bem-estar social.

E, por trás dessa grande transformação, está o ser humano. Ele é o driver dessa transformação, é o colaborador, o consumidor, o cidadão em geral. E o que esse cidadão, esse novo consumidor quer? Ele quer a mobilidade na palma da sua mão e a experiência de se sentir mais humano. Ele quer ser inserido em uma economia de confiança e possui uma consciência na busca por um mundo melhor. Esse consumidor praticamente decretou o fim da posse, porque ele valoriza muito mais o que ele é e cada vez menos o que ele tem.

Pode ser contraditório, mas essa transformação tecnológica e disruptiva traz as pessoas para o centro da decisão, com o seu empoderamento e a humanização das relações. Cada vez mais, as empresas terão que se preocupar com os 3Cs, cliente, colaborador e comunidade, de forma conjunta. E como esse mundo irá se conectar? A conexão entre tudo isso está no propósito, simplesmente a razão de ser.

Propósito, uma simples palavra, mas com uma capacidade enorme de transformação se bem usada. E, na sua opinião, qual o propósito do setor sucroenergético brasileiro? Com a sua resposta, nós conseguiremos fazer essa conexão entre as pessoas?

Na minha opinião, o propósito do setor é produzir alimento e energia limpa e renovável, de forma competitiva, para o Brasil e para o mundo, gerando emprego e renda para os brasileiros. Essa é a nossa razão de ser e o que deveria nos mover em direção ao futuro. Imagine cada colaborador do setor entendendo a sua função de alimentar o mundo e produzir energia para mover os carros e os aparelhos eletrônicos das pessoas.

Imaginem o orgulho de uma comunidade ao saber que a sua cidade ajuda a reduzir a fome na África ou mesmo auxilia a manter um ar de melhor qualidade para respirarmos. Imagina o seu cliente satisfeito de ter encontrado o seu produto próximo a ele, com um preço justo e de boa qualidade. Essa é a conexão tão necessária para encararmos essa transformação.

Para isso, precisaremos mudar. Chegamos até aqui com relativo sucesso, um grande parque produtivo, vasta área de cana, sistemas logísticos consolidados, uma diversificação imprescindível para atravessar as turbulências intrínsecas às commodities e um grande mercado consumidor. Mas será o suficiente para construirmos o futuro? Infelizmente, não.

O setor sucroenergético brasileiro tem como característica o olhar para dentro, muito normal para um segmento muito complexo, com tamanhas incertezas de produção e preço. Mas, agora, chegou a hora de também olhar para fora, fazer a conexão com a sociedade, mostrar a ela que o nosso propósito se encaixa naquilo que ela procura.

Voltemos às perguntas do início do texto. Vejamos a primeira. Somos produtores de energia renovável e limpa, uma opção ao combustível fóssil e altamente imprescindível ao Brasil e a alguns países do mundo para fazer a transição para a economia de baixo carbono. Você, acreditando ou não nas mudanças climáticas, saiba que boa parte da sociedade acredita e quer pagar por essa mudança.

A utilização cada vez maior do etanol e da bioeletricidade de cana se dará a partir da capacidade do setor de se conectar com esse mundo do consumo consciente e preocupado com o meio ambiente. Esse é o desafio. Não é você que escolhe o consumidor, é ele que o irá escolher, portanto conecte-se a ele.

Da mesma forma, quando falamos sobre açúcar, a primeira ideia que vem à mente das pessoas é a questão da obesidade. Mal sabem elas que o açúcar, no sentido geral, é imprescindível à sociedade e está presente inclusive no primeiro alimento nosso, o leite materno. Quantos povos ao redor do mundo sofrem com a falta de comida, de energia para o corpo humano. O açúcar ainda tem muito que adoçar o mundo. E para aquelas pessoas que têm opção? Mais uma vez, como vamos fazer essa conexão, é um grande desafio. Convido a todos a visitar a área de açúcares especiais de um supermercado classe A, veja a transformação que podemos fazer: demerara, orgânico, fit, etc…

É só conectar com o propósito das pessoas, seremos novamente escolhidos. Aos poucos, o interesse por exercícios físicos está aumentando, o que possibilita novas mudanças de hábitos; equilíbrio é a palavra do momento. Portanto o futuro do setor sucroenergético dependerá sobretudo das pessoas, são elas que definirão o nosso caminho de produção, sua produtividade e eficiência; são elas que pensarão e planejarão o setor, levando-o a fazer essa tão almejada conexão com a sociedade brasileira e mundial. Só depende de nós!

FONTE: BLOG DO MARIO CAMPOS

#EuPrefiroEtanol

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