Etanol e veículos flex-fuel: possibilidade de escolha e a economia efetiva aos consumidores


Por Luciano Rodrigues – Gerente de economia e análise setorial da UNICA

O mercado brasileiro de combustíveis leves apresenta característica única no mundo. Não há outro País com uma frota de quase 5 milhões de motocicletas e 30 milhões de veículos aptos a utilizarem qualquer combinação entre gasolina e etanol hidratado. Lançada em março de 2003, a tecnologia flex-fuel rapidamente se consolidou no Brasil e hoje está presente em 46% das motocicletas e 96% dos automóveis novos comercializados domesticamente.

Associa-se a essa singularidade, o pioneirismo brasileiro no desenvolvimento e uso do etanol combustível, com vasta experiência na produção, além de logística de distribuição e infraestrutura que garantem a oferta do biocombustível nos postos revendedores em todo o território nacional.

Essas características oferecem ao consumidor brasileiro uma opção privilegiada: a possibilidade de escolher o combustível desejado a cada abastecimento, dependendo do preço relativo dos produtos e de suas preferências. Trata-se de uma condição que não encontra paralelo em nenhuma outra nação do globo.

A possibilidade de escolha garante maior competição e, a partir de mecanismos de mercado, reduz o risco de preço dos combustíveis aos proprietários de veículos flexíveis. Dito de outra maneira, essa condição oferece uma proteção estrutural ao consumidor diante das variações no valor da gasolina.

Os preços do etanol e da gasolina no mercado doméstico são determinados por inúmeros fatores inerentes as particularidades de cada setor. No caso do etanol, se destacam a estrutura produtiva pulverizada e competitiva, o maior tempo de resposta da oferta, o impacto de fatores climáticos e biológicos na produção, a sazonalidade da oferta durante os períodos de safra e entressafra, entre outros aspectos presentes nos mercados de commodities agrícolas. A gasolina, por sua vez, apresenta valor definido a partir de uma estrutura altamente concentrada, com influência das mudanças na taxa de câmbio e nas condições no mercado internacional de petróleo, especialmente após a nova política de preços praticada domesticamente.

É nesse contexto complexo, com múltiplos fatores inter-relacionados determinando os preços dos produtos, que o consumidor nacional pode aproveitar as variações nos valores de bomba para auferir economia em seus gastos com combustíveis. Aproveitando-se dessa dinâmica, o proprietário de veículo flex pode optar pelo biocombustível toda vez que o preço relativo entre hidratado e gasolina for inferior ao diferencial de rendimento dos dois produtos (razão entre a quantidade de quilômetros percorridos com cada combustível).

Com efeito, em 2018 a liberdade de escolha do combustível propiciou uma economia próxima de R$ 6,5 bilhões aos consumidores brasileiros. Essa estimativa considera o menor gasto por quilômetro rodado toda vez que o preço do etanol hidratado se situa abaixo de 73% do valor praticado para a gasolina – estudos de campo indicam que esse percentual reflete o diferencial médio rendimento dos combustíveis na frota nacional operando em condições reais.

Em 14 das 27 unidades da Federação, os consumidores locais usufruíram desses ganhos, com destaque para os Estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Paraná, que concentraram 98% da economia total (Figura 1). Cabe mencionar que esses Estados representam 55% da frota de veículos leves no País e apresentam uma política tributária que reconhece os benefícios sociais, econômicos e ambientais dos biocombustíveis.

No acumulado desde 2003, ano de lançamento dos veículos bicombustíveis, a economia advinda da presença do etanol no mercado nacional alcançou quase R$ 65 bilhões (Figura 2). 
Esse montante equivale a 1% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro que deixou de ser gasto com a compra de combustível e foi empregado na aquisição de outros produtos, com efeito multiplicador significativo na ativação da economia nacional.

Esses números evidenciam a importância da preservação e consolidação do etanol na matriz nacional, com economia expressiva aos consumidores de combustíveis, além dos já conhecidos efeitos positivos na geração de empregos, na interiorização do desenvolvimento, na redução dos gastos com saúde pública, na redução do déficit na balança comercial dos derivados e na mitigação das emissões de gases causadores do efeito estufa.


*Coautor José Guilherme de Oliveira Belon, economista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). É analista econômico na UNICA e pós-graduando em economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

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