Nosso mercado é cada vez mais desafiador

Por Martinho Seiti Ono – Diretor da SCA Etanol do Brasil
Coautor: Cheng Vim, Gerente de Exportações de Açúcar e Etanol da SCA Etanol do Brasil
Revista Opiniões Fev-Abr de 2019

Apesar das grandes dificuldades recentes e atuais que reduziram, em muito, a expansão da atividade canavieira brasileira, somos ainda a região de menor custo de produção de cana no mundo. Com investimento e tecnologia adequados, ainda há muito espaço para incremento de rendimento e eficiência, graças às excepcionais condições de clima local para essa cultura agrícola.

A já extensamente comprovada capacidade da atividade sucroenergética em gerar empregos e interiorizar o desenvolvimento econômico nacional deve ser foco de atenção das gestões governamentais. É necessário, por parte dos produtores, um esforço maior e mais concentrado no sentido de apresentar essas oportunidades de desenvolvimento econômico aos órgãos governamentais e para a sociedade.

Com custo de produção agrícola competitivo, seria de se esperar também uma boa competitividade de seus produtos finais. Não é, porém, o que vem ocorrendo. Principal produto de exportação do setor, o açúcar, enfrenta ambiente mundial hostil. As políticas protecionistas e de incentivos indevidos praticados por outros países produtores desequilibram as condições de livre e justa concorrência.

A OMC é o fórum adequado para essas questões, e o campo próprio para busca da devida correção. O governo brasileiro, demandado pelo setor produtor, já atua nesse sentido. Mas os tempos de resposta desses procedimentos são longos, e os desequilíbrios, muito prejudiciais, podem perdurar por longos períodos.

A demanda mundial pelo açúcar é pouco elástica, mas ainda crescente, embora em ritmo menor que em anos anteriores. Necessária a persistência na busca de regras justas de concorrência para o comércio internacional. Adicionalmente, cabe ao produtor brasileiro lançar mão de sua característica única (de poder derivar cana em larga escala para outro produto além do açúcar: o etanol) para mitigar perdas em momentos de excedentes e otimizar ganhos em momentos de escassez.

A decisão do setor produtor deve, em uma condição ideal, priorizar a melhor remuneração ao conjunto de sua produção possível a partir da cana fundada, considerando também aspectos de médio prazo, além das condições pontuais. O etanol, com a sua destinação quase total para o mercado brasileiro de combustíveis, tem enfrentado ambiente dinâmico, mas também desafiador.

Apesar de suas inegáveis e superiores qualidades ambientais, tem competido apenas em preço com o combustível fóssil nas bombas. Nenhum valor adicional lhe tem sido atribuído pelas suas comprovadas qualidades gerais superiores. O advento do veículo com motor flex e sua extensa frota nos possibilita, ao menos, uma demanda potencial elástica e ampla.

Um case único e de sucesso no mundo. A questão para nosso etanol reside no desafio de trabalhar preços remuneradores. Oriundo de um produto agrícola e produzido apenas durante o período de safra, precisa ser estocado a elevados custos financeiros para atendimento do mercado também nos meses subsequentes. Exigência natural de um mercado adequadamente atendido.

Seu competidor em preço nas bombas, derivado fóssil e de produção contínua tem preços mundiais voláteis e extremamente relacionados a questões geopolíticas. A transferência dessa volatilidade para o mercado interno tem sido aplicada nos tempos recentes. Apesar dos riscos e fortes oscilações inerentes, esse ambiente, com preços alinhados pelo mercado mundial, é o mais adequado ao permitir uma melhor previsibilidade e condições de planejamento ao produtor de etanol.

O advento dos contratos anuais, definido pela Agência Nacional de Petróleo para o etanol anidro, tem o condão de permitir ao produtor um grau mínimo de garantia de consumo para o volume produzido nessa especificação. Resta-nos construir um mecanismo similar para o etanol hidratado. O programa RenovaBio poderá suprir essa importante lacuna. Sua implementação exitosa e plena é de suma importância para o programa de biocombustíveis brasileiro.

Permitirá maior grau de segurança e planejamento de produção dos biocombustíveis aos agentes envolvidos. Paralelamente, permitirá que se tenha parâmetros para melhor projeção da produção de açúcar a cada safra. Deveremos ter um ambiente com proporções de produção de açúcar/etanol mais previsíveis e adequados a seus mercados respectivos.

As prementes necessidades financeiras não permitem maior capacidade de planejamento adequado para boa parte das indústrias do setor. Não há como evitar que esse aspecto impacte negativamente os preços, mesmo em ambiente de mercado mais balanceado, se considerado todo o período da safra/ano.

Resta a cada produtor de etanol, conforme sua condição financeira e análise de custos e cenário de mercado, buscar vendas no tempo e no volume adequados às suas necessidades de caixa e/ou na medida em que os níveis de preço lhes sejam remuneradores. Os mecanismos de hedge para etanol ainda não tem liquidez e segurança suficientes.

A exposição ao risco e as incertezas dos preços futuros ainda são elevadas. O mesmo raciocínio se deve aplicar para a decisão de se efetuar ou não a contratação anual para o caso do etanol anidro. Análise do prêmio adequado para compensar os riscos e as incertezas para carregar o produto ao longo do ano devem ser consideradas com atenção.

É patente a pouca capacidade para se carregarem estoques da produção sucroenergética brasileira em geral. No açúcar, além dos aspectos financeiros, a ínfima capacidade de armazenagem física é surpreendentemente limitada e desproporcional no Brasil. Somos, de longe, os maiores exportadores mundiais e, apesar disso, dispomos de muito menor capacidade de armazéns que a Tailândia, segunda no ranking de exportadores e muito aquém do Brasil.

Nessa condição de pouco carrego de estoques, com certeza absorvemos grandes perdas de valor no produto comercializado, de forma concentrada em período limitado da safra. No etanol, apesar da boa capacidade física da tancagem dos produtores, são enormes o custo financeiro necessário para o carrego dos estoques e a falta de previsibilidade/mecanismo de hedge de preço efetivo os fatores limitantes.

Em ambos os produtos, a falta de uma linha de financiamento para esses estoques reduz, de forma estrutural, a remuneração possível para os produtores. No caso do etanol, temos um aspecto curioso: o estoque é caro de se manter e pode até se desvalorizar ao longo do tempo de entressafra, mas é essencial e indispensável para a manutenção, funcionamento e a própria existência desse valioso mercado, tão duramente construído. Esse aspecto deve e precisa ser devidamente tratado pelo setor.

Um adequado mecanismo de financiamento institucional para os estoques é possível e deve ser objeto de atenção do setor, pois é viável de se obter a custos razoáveis contra a garantia do próprio produto. Com tantos desafios a serem superados, não nos parece razoável que os produtores desviem o foco, discutindo a venda direta de etanol aos postos.

O Brasil, com sua enorme extensão geográfica, deficiente capacidade logística e fragilidade tributária, deve manter a distribuição de combustíveis com as empresas especializadas, que há mais de 100 anos atuam nesse segmento no País. Exigir deles um elevado grau de competição no mercado e garantia da qualidade dos produtos e serviços fornecidos são requisitos que devemos, continuamente, cobrar

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