Queda no consumo de açúcar não reduziu obesidade: americanos ingerem quase 900 calorias a mais por dia; especialista analisa causas
De acordo com dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, elaborados pela consultoria agrícola DATAGRO, o consumo per capita de açúcar (cana e beterraba) nos EUA caiu cerca de um terço entre 1970 e 2022, de 51,99 kg em 1970 para 34,09 kg em 2021.
No entanto, os americanos estão consumindo mais calorias por dia do que há quase 50 anos. Em 1970, a média era de 3.029 calorias por pessoa por dia; em 2021, esse número subiu para 3.911 calorias, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

O americano médio está consumindo 882 calorias a mais por dia do que em 1970. Embora varie de indivíduo para indivíduo, esse excesso pode resultar em um ganho de peso de cerca de 41,4 kg por ano.
Dados do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES) mostram que, entre 1988-94 e 2005-06, houve um aumento de cerca de 50% na prevalência de obesidade (de 22,9% para 34,3%) e de 100% na prevalência de obesidade mórbida (de 2,9% para 5,9%).
Açúcar não pode ser considerado o vilão da obesidade
A nutricionista Renata Mesquita de Carvalho (CRN-6 21863) ajuda a entender qual a função do açúcar no organismo e como o corpo o absorve.
“O açúcar é rapidamente absorvido pelo organismo porque é um carboidrato simples. É facilmente quebrado e convertido em glicose, a forma de açúcar utilizada pelas células para obter energia. A glicose entra na corrente sanguínea elevando rapidamente os níveis de açúcar no sangue, o que desencadeia a produção de insulina pelo pâncreas para ajudar a transportar essa glicose para as células”, diz Renata.
Os dados mostram que o consumo de açúcar caiu, mas a ingestão calórica aumentou. Podendo lançar uma luz de que o açúcar, sozinho, não pode ser responsabilizado pela epidemia de obesidade.
“Obesidade é uma doença multifatorial, que envolve alimentação desequilibrada (alta ingestão calórica), sedentarismo, genética, ambiente alimentar, sono inadequado. O consumo exagerado de açúcar, especialmente o açúcar adicionado nos produtos industrializados, contribui para o desenvolvimento de obesidade, diabetes e outras doenças crônicas. O que faz mal à saúde não é o açúcar em si, mas o consumo exagerado e diário, muitas vezes escondido em alimentos ultraprocessados como: refrigerante, suco de caixinha, biscoito recheado, bolo e doce, molhos prontos, cereais, iogurtes, fast food, sobremesas, sorvete, chocolate”, explica Mesquita.
Ela destacou que nem sempre a quantidade de açúcar nos alimentos processados e ultraprocessados é percebida. De acordo com o Sindalcool, o mesmo se aplica aos adoçantes sintéticos ou edulcorantes, além dos pigmentos artificiais e derivados do petróleo usados para colorir, já bem estudados.
“O açúcar pode ser encontrado na lista de ingredientes dos rótulos de alimentos com os seguintes nomes: açúcar invertido, açúcar de coco, dextrose, frutose, glicose, glucose, maltose, maltodextrina, sacarose, xarope glucose-frutose, xarope de milho entre outros”, alertou a nutricionista.
Açúcar pode fazer parte de uma alimentação saudável
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), no máximo 10% das calorias diárias devem ser provenientes do consumo de açúcar. Considerando uma dieta de 2.000 calorias, esse percentual equivale a 50 gramas de açúcar por dia (cerca de 10 colheres de chá).
“Essa recomendação abrange tanto os açúcares que usamos para adoçar uma bebida, por exemplo o café, como os açúcares adicionados pelas indústrias nos produtos como bolacha, iogurte, pão, chocolate, suco, entre outros, quanto os naturais presentes em alimentos como o mel”, disse Renata.
“O açúcar pode fazer parte de uma alimentação saudável quando consumido com moderação e dando preferência a preparações caseiras. Evitar ao máximo produtos ultraprocessados porque contém muita adição de açúcares”, finalizou a nutricionista.
Açúcar: energia, cultura e economia
O açúcar é estratégico tanto na economia quanto na cultura alimentar. O Brasil é o maior produtor e exportador mundial, responsável por cerca de 54% das exportações globais e produzindo em torno de 43,7 milhões de toneladas em 24/25, segundo a DATAGRO. O setor sucroenergético gera aproximadamente dois milhões de empregos diretos e indiretos no país, movimentando mais de R$ 150 bilhões por ano.
“Na alimentação e cultura, o consumo mundial de açúcar gira em torno de 180 milhões de toneladas/ano (FAO, 2023). Além de adoçar, o açúcar tem funções tecnológicas (textura, conservação, fermentação) e está presente em tradições culinárias — no Brasil, doces como rapadura, bolo de rolo e sobremesas festivas têm origem direta na cana-de-açúcar. Assim, o açúcar é pilar econômico e cultural: sustenta exportações, empregos e energia (etanol), ao mesmo tempo em que molda hábitos alimentares e tradições.”, diz Gilvan Celso C. Morais Sobrinho, diretor-presidente da Miriri Alimentos e Bioenergia, situada na zona rural de Santa Rita, região metropolitana de João Pessoa.
A Miriri produz açúcar, etanol, destilados e energia elétrica, transformando a cana-de-açúcar em alimentos de qualidade e energia limpa. Na Paraíba, a indústria do açúcar reúne sete usinas associadas ao Sindalcool. Na safra 24/25, a moagem de cana-de-açúcar apresentou crescimento de 1% (de 7.341.806 para 7.406.179 toneladas). A produção de açúcar foi o principal destaque, com crescimento expressivo de 28%, saltando de 230.059 para 293.437 toneladas.
“O açúcar é uma fonte natural de energia. A sacarose, presente na cana, frutas e vegetais, se transforma em glicose — combustível essencial para músculos e cérebro (que consome cerca de 120 g de glicose por dia, ~20% da energia do corpo). Cada grama de açúcar fornece 4 kcal. Dados do USDA mostram que, mesmo com a queda de 51,6 kg per capita/ano em 1970 para 34,1 kg em 2021 nos EUA, a ingestão total de calorias aumentou (de 3.029 kcal/dia para 3.911 kcal/dia). Isso prova que o açúcar não é o vilão isolado da obesidade, mas parte do equilíbrio energético. Segundo a OMS, até 10% das calorias diárias podem vir de açúcares adicionados com segurança. Em resumo: “Açúcar é energia natural”, essencial em moderação e importante para performance física e mental”, finalizou Gilvan.
