Plinio Nastari é presidente da DATAGRO, e Representante da Sociedade Civil no CNPE, Conselho Nacional de Política Energética, em texto ele expressa a relação da qualidade do ar com o número de mortes por Covid-19, e alerta sobre a exposição da população ao material particulado fino que é gerado em grande parte pela combustão de combustíveis fósseis em veículos, refinarias, e usinas geradoras de energia a base de carvão e outras energias fósseis.

Confira o texto na íntegra logo abaixo:

A busca por mobilidade de elevada eficiência energética e ambiental.

Plinio Nastari

Políticas públicas nas áreas de energia e meio ambiente tem buscado instrumentos que fomentem o aumento da eficiência energética e o controle da emissão de poluentes de impacto local e global. Embora não exista um consenso sobre a forma de medir todas as variáveis envolvidas, explicado mais por interesses comerciais do que desafios científicos, há um crescente reconhecimento de que se deve medir esses efeitos de forma completa, e não parcial. Quase toda semana surge nova notícia sobre avanços tecnológicos relacionados à produção e durabilidade de baterias. Esses desenvolvimentos são necessários, mas não devem ofuscar o fato que as baterias são armazenadoras de energia, e equivalem ao tanque de combustível dos atuais veículos. Baterias não podem ser confundidas com a energia que armazenam, onde a maneira de produzir, armazenar e distribuir é o que conta.
Em tempos de pandemia, cresce a compreensão sobre o valor da qualidade dos produtos consumidos. Em energia para transporte, cresce a percepção sobre a importância do seu impacto na qualidade do ar, afinal a pandemia atual, assim como a gripe espanhola do século passado, trata de deficiência pulmonar que é impulsionada pela poluição atmosférica. Estudo recente conduzido pela Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, concluiu que pessoas com COVID-19 que vivem em regiões dos EUA com altos níveis de poluição do ar têm mais chance de morrer da doença do que pessoas que vivem em áreas menos poluídas.
Este é o primeiro estudo analisando a ligação entre a exposição de longo prazo à poluição do ar por partículas finas (MP2.5) e o risco de morte por COVID-19 nos Estados Unidos. O material particulado fino é gerado em grande parte pela combustão de combustíveis fósseis em veículos, refinarias, e usinas geradoras de energia a base de carvão e outras energias fósseis.
O estudo analisou mais de 3.000 municípios em todo o país, comparando os níveis de poluição atmosférica particulada fina com a contagem de mortes por coronavírus em cada área. Ajustando para o tamanho da população, leitos hospitalares, número de pessoas testadas para COVID-19, clima e variáveis ​​socioeconômicas e comportamentais, como obesidade e tabagismo, os pesquisadores descobriram que um pequeno aumento na exposição a longo prazo ao MP2.5 leva a um grande aumento da taxa de mortalidade por COVID-19.
O estudo descobriu, por exemplo, que alguém que vive há décadas em um município com altos níveis de poluição por partículas finas tem 8% mais probabilidade de morrer de COVID-19 do que alguém que vive em uma região que possui apenas um micrograma por metro cúbico a menos desse poluente.
O estudo sugere que os municípios com níveis mais altos de poluição “são os que enfrentarão maior número de hospitalizações, maior número de mortes e onde muitos dos recursos devem ser concentrados”, revelou Francesca Dominici, autora principal do estudo em artigo publicado no The New York Times em 7 de abril. Estas descobertas indicam a importância de se continuar a impor os regulamentos de poluição do ar existentes para proteger a saúde humana durante e após a crise do COVID-19, mas fazendo-o de forma completa e não parcial. Não adianta pretender controlar a níveis inatingíveis a emissão dos canos de escape, e deixar sem controle a emissão relacionada à geração, armazenamento e distribuição de energia, que precisa ser considerada de forma conjunta. O desenvolvimento e aplicação de tecnologias utilizando sistemas de elevada eficiência energética e baixo impacto ambiental deve ser estimulado e fomentado, usando a régua de medir correta.
No Brasil, o uso em mobilidade de biocombustíveis em conjunto com combustíveis tradicionais, tem sido fator relevante de redução da poluição gerada por material particulado e outros poluentes. A engenharia nacional desenvolveu tecnologias para utilizá-los de forma eficiente, com grande valor estratégico, econômico e ambiental, que precisam ser valorizadas e intensificadas.

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